Ler Dostoiévski em português é para os fracos. Carlos Freire queria
devorar Crime e Castigo e outros clássicos russos no original. Aos 20 anos, ele
mergulhou nos livros e se mudou para a casa de uma família russa em Porto
Alegre. Em poucos meses, dispensou os tradutores. E não era seu primeiro idioma
estrangeiro. Logo cedo, a proximidade com o Uruguai o deixou afiado no
espanhol. Depois, aprendeu francês, latim e inglês. O caminho da faculdade era
claro: Letras. "Quanto mais idiomas você sabe, mais fácil aprender outros.
Os 10 primeiros são os mais difíceis", diz. Sim, 10. Aos 80 anos, Freire
já estudou 135 línguas - de japonês a esperanto. É mais do que o padre italiano
Giuseppe Mezzofanti, que ficou notório no século 18 por ouvir confissões na
língua nativa dos estrangeiros. Especula-se que ele falava entre 61 e 72
idiomas e lia em 114.
Os dois integram um seleto time de pessoas que conseguem aprender
dezenas de idiomas. Não são só poliglotas. Quem é fluente em mais de 6 línguas
tem um título maior: hiperpoliglota. O termo foi definido em 2003 pelo
linguista britânico Richard Hudson. Ao estudar comunidades poliglotas, ele
descobriu que o número máximo de idiomas falados em comum por todos os
moradores é 6. Ainda não se sabe o motivo exato de serem 6 línguas. O que se
sabe é que os hiperpoliglotas são diferentes de bilíngues ou meros falantes de
3 ou 4 línguas. E que os limites do cérebro deles podem ajudar a ciência a
buscar os limites do nosso cérebro.
IDADE É TUDO
Mezzofanti entrou na escola aos 4 anos, onde aprendeu 3 idiomas.
Aprender línguas na infância faz toda a diferença. Após a puberdade, os
hormônios dificultam a reprodução de um sotaque mais autêntico. Se você aprende
francês após os 14 anos, por mais que estude, provavelmente vai soar como um
"brasileiro fluente em francês" - mas não como um francês. Vários
estudos comprovaram essa tese. Um deles selecionou 46 adultos chineses e coreanos
que moraram nos Estados Unidos em diferentes fases da vida. Os que chegaram ao
país até os 7 anos tiveram resultados semelhantes aos de nativos. Quem chegou
aos EUA com mais de 15 anos teve desempenho pior.
Isso ocorre porque, com o tempo, o cérebro parece endurecer. Conforme
crescemos, ele forma estruturas neurais confiáveis para orientar as ações que
tomamos. É uma base de conhecimento que guia as experiências e responde às
situações do dia a dia. À medida que mais estruturas neurais se formam, o
cérebro perde flexibilidade. E ela é importante para aprender coisas complexas,
como falar uma língua. Pesquisadores acreditam que os hiperpoliglotas conseguem
prolongar essa plasticidade. "Eles são como um experimento natural sobre
os limites humanos", diz Michael Erard, linguista e autor do livro
recém-lançado Babel no More (inédito em português). Não é de se estranhar,
portanto, que ainda hoje Freire mantenha o ritmo de aprender de dois a 3
idiomas por ano.
Falar pode parecer um ato simples, mas exige várias tarefas do
cérebro: percepção auditiva, controle motor, memória semântica, sequenciamento
de palavras. Para assimilar um novo idioma, o cérebro precisa entender as
estruturas do som e das palavras. E, até chegar a isso, o aprendizado percorre
um longo caminho pelos hemisférios esquerdo e direito do cérebro.
Com vários pontos de parada, não é difícil perceber a complexidade
disso tudo. E cada coisa nova que se aprende (como tocar um instrumento
musical) não percorre exatamente o mesmo caminho. Já se sabe que aprendemos
melhor uma língua na infância. Mas essa vantagem da juventude não se estende,
necessariamente, a todos os outros aprendizados da vida. Ser um gênio no piano
porque começou a tocar aos 5 anos pode não ter nada a ver com plasticidade.
"Não importa a idade, dizem que você precisa de 10 mil horas para tocar
bem um instrumento. Ou seja, tocar melhor porque aprendeu aos 5 anos pode ser
apenas uma vantagem incidental, porque teve mais tempo para estudar", diz
Diogo Almeida, professor de psicologia da Universidade de Nova York e
especialista em linguística. Ou seja, por mais que hiperpoliglotas consigam
adiar o enrijecimento do cérebro, a maior contribuição deles para a ciência é
outra - e um tanto mais óbvia: acúmulo de conhecimento. Memória.
Aprender dezenas de línguas não é o mesmo que ser fluente em várias ao
mesmo tempo. O americano Gregg Cox, citado no Guinness Book como "o maior
linguista vivo" (64 línguas e 11 dialetos) conseguia se comunicar em
apenas 7 idiomas ao mesmo tempo. Freire encarou um desafio maior em Moscou.
Durante uma reunião com estrangeiros, teve de falar em 10 idiomas diferentes. E
conseguiu. Michael Erard realizou uma pesquisa com 172 hiperpoliglotas e
constatou que a maioria pode manter de 5 a 9 línguas ativas na memória. As
outras ficam guardadas em outra área, a memória de longo prazo, como se fossem
arquivos comprimidos no computador. O conhecimento está lá, mas não pode ser
acionado instantaneamente. Leva um tempo para reabri-los. Freire, por exemplo,
explica que, para relembrar um idioma, ele precisa de uma semana de estudo.
"É possível ativar mais línguas, mas exigiria um tremendo esforço",
diz Erard. "Além do mais, essas pessoas têm outras coisas para
fazer". Quem volta do exterior falando outra língua em vez de português já
passou por algo semelhante. Há uma reprogramação no cérebro. Agora imagine
conversar em 10 idiomas ao mesmo tempo. Pois é.
CAIXA ELÁSTICA
Quando Freire saiu de um diálogo em russo para conversar em alemão,
seu córtex pré-frontal mudou a chave da linguagem. Essa área do cérebro conta
com a ajuda da memória ativa. A quantidade de línguas que um hiperpoliglota
controla ao mesmo tempo dá uma dimensão do espaço da memória ativa. E, apesar
de treino, expandir essa caixa não parece muito possível. Informações novas
chegam, velhas vão para a memória de longo prazo. Ou somem.
Se por um lado a memória ativa guarda relativamente pouca coisa, a
memória de longo prazo tem um espaço maior. E mais flexível. Na pesquisa de
Erard, os entrevistados conseguiam, em média, aprender 30 idiomas. Perto das
façanhas de Freire, Cox e Mezzofanti, parece pouco. Mas é aí que outros pontos
entram em cena. O primeiro é a genética. Segundo cientistas da Universidade de
Münster, na Alemanha, a habilidade em aprender idiomas envolve diferenças
genéticas nos neurotransmissores do hipocampo, a área que transforma
informações temporárias em permanentes. As filhas de Freire, por exemplo, falam
mais de 3 línguas. Têm facilidade, mas nunca quiseram aprender mais. E motivação
é fundamental. Freire aprendeu novas línguas porque queria ler os clássicos sem
encarar tradutores. Mezzofanti usava a facilidade com idiomas dentro da
religião - diz a lenda que ele, uma vez, aprendeu um novo idioma, em menos de
um mês, apenas para ouvir a última confissão de um homem condenado à morte. A
genética ajuda, mas o fator determinante é outro: a velha e batida vontade de
aprender.
O jornalista americano Joshua Foer comprovou isso. Ele foi desafiado a
fazer um treinamento intensivo para participar de um campeonato de memorização
nos EUA. Foer era péssimo para lembrar coisas simples (onde deixou as chaves,
por exemplo). Topou o desafio e, um ano depois, ganhou o campeonato.
Basicamente, ele aprendeu a organizar as informações no cérebro e a traçar
caminhos para encontrá-las. Freire faz o mesmo. Há 50 anos, ele dedica pelo
menos 3 horas diárias de estudo, com uma meta em mente: aprender 3 idiomas por
ano. Essas pessoas mostram que é possível expandir a capacidade de guardar
informações na caixinha de longo prazo, sem precisar de um QI acima da média.
Se a memória ativa mostra um limite pouco mutável, a memória de longo prazo
parece aumentar de acordo com a vontade de cada um. Mas, afinal, qual a
vantagem em guardar tanta coisa?
Memória para quê?
Freire lê romances no original e ganha dinheiro com tradução e aulas.
A neurocientista Ellen Bialystock, da Universidade de York, no Canadá, afirma
que pessoas que falam mais línguas apresentam maior capacidade de concentração
e se tornam mais distantes do Mal de Alzheimer. Ela estudou casos de 211
pacientes e concluiu que os bilíngues adiaram os sintomas da doença em até 5
anos, quando comparados a um monolíngue. Eles mantêm o cérebro ativo.
Mas com a internet no bolso e várias maneiras tecnológicas de guardar
e acessar informação, qual é a utilidade prática da memorização? Precisamos
decorar menos informações. E a nossa cabeça já está mudando. Estudos indicam
que o Google modificou a memória das pessoas: deixamos de decorar quando
sabemos que há uma fonte externa de armazenamento de informação. Pare e pense:
quantos números de telefone você sabe de cor? Provavelmente bem menos do que
sabia antes da popularização das agendas nos celulares. "Tornamo-nos
dependentes dela [dessa fonte externa] no mesmo nível que somos dependentes de
todo o conhecimento que recebemos dos amigos. Aí, perder a conexão parece
perder um amigo", diz o estudo. Ficamos apegados ao fato de que a
tecnologia aumenta exponencialmente o acesso a informação e conhecimento. A
internet parece cuidar cada vez mais disso. Expandir a memória é difícil, mas
possível. O desafio maior é querer.
Fonte: Superinteressante.
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